O locutor e o amor à pátria de chuteiras

28 11 2007

“O TORCEDOR está louco para se apaixonar de novo pela seleção brasileira”, dizia Galvão, com sua voz permanentemente embargada. O tom é aquele que todos conhecemos, entre a exortação de algo que deveríamos estar sentindo automaticamente toda vez que haja figurinhas de amarelo em campo (“A Seleção está jogando, pessoal, temos de nos regozijar, mesmo que o jogo esteja feio e os uruguaios, justo eles, estejam jogando melhor”) e uma reprovação suave, paternal, diante do desânimo.

“É um estranho amor este, obrigatório e que não suporta nenhum tipo de dissonância”

Tornou-se o mais novo bordão, repetido com cada vez mais veemência, à medida que o jogo se desenrolava e o goleiro fazia defesas cada vez mais difíceis. Enquanto os jogadores pipocavam no campo e a torcida-família reagia, com vaias e gritos, Galvão insistia em sua tese, pressupondo que ali havia um time que temos que amar automaticamente.

Para reforçar, no intervalo, somos relembrados das razões que devem nos levar a esse amor, por meio de imagens mágicas do passado, com a infernal dupla Pelé & Garrincha, “gênios da raça” mostrados naquele preto-e-branco encantador, diante de zagueiros ainda verdadeira e ingenuamente abobalhados.

A reverência do preto-e-branco fala à nostalgia e ao mito; quase funciona. Pouco depois, somos de volta jogados à estridência das propagandas de cerveja, das ofertas de eletrodomésticos para a fúria de final de ano e, sim, às vaias da torcida, solenemente ignoradas pelo locutor. “Pipoqueiro! Pipoqueiro!”, gritava o estádio do Morumbi, não importa para quem, uma vez que se sucediam jogadas ruins e passes perdidos, enquanto Galvão fazia jornalismo seletivo, registrando “olas” e aplausos e não considerando relevantes as manifestações de desagrado e de enfado dos torcedores. É um estranho amor este, obrigatório e que não suporta nenhum tipo de dissonância.

Era um jogo cansativo aquele que acontecia no campo, com estrelas do futebol internacional entre a apatia, a má fase e a simples falta de caráter, e o outro, emitido pelo locutor-símbolo do nacionalismo esportivo hiperbólico e deslocado.

O juiz contava os minutos, deixando passar “faltinhas”, no dizer do comentarista da arbitragem, e outras nem tão “inhas” assim, enquanto que, do lado de cá do vídeo, uma dúvida-pânico ia se instalando: “Vamos nessa toada de amor compulsório à pátria de chuteiras até 2014?”.

De sensato, apenas Juan, que, ao sair do jogo, numa frase de genialidade espontânea, admitiu que o time, na ânsia de fazer o gol, tinha “corrido desgovernado”, franqueza que o jornalismo seletivo de Galvão não teve agilidade para ocultar.

biabramo.tv@uol.com.br


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